O Correio Eletrônico e a Sua Influência na Gestão
18 de Junho de 2007 @ 01:10 - Alfredo BorbaArquivado sob Informática | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Dentro do espírito do Blog WebCalc, de divulgar temas relativos à ciência e tecnologia, decidi publicar uma adaptação de um trabalho de pós-graduação, escrito por mim em parceiria com o colega e amigo Paulo Emmanuel Alves Simões (Engenheiro Eletricista pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC-MG). O artigo procura contribuir para a discussão sobre a influência do correio eletrônico na gestão empresarial, buscando entender se o uso dessa tecnologia tem provocado uma sobrecarga de informação e qual é o seu efeito no tempo disponível do gerente.
Deixei o texto no seu estilo acadêmico original, mesmo sabendo que não é o mais apropriado para um blog. Mas, acredito que, desta forma, o texto será mais útil para os que buscam um referencial sobre o tema.
Para os que querem se aventurar em um texto relativamente longo e acadêmico, desejo boa leitura e que as informações e reflexões sejam um ponto de partida para estudos mais aprofundados desse tema ainda muito pouco estudado.
O Correio Eletrônico e a Sua Influência na Gestão:
Estudo de Caso em Uma Empresa Brasileira de Grande Porte
Alfredo José G. A. Borba
Paulo Emmanuel Alves Simões
1. Introdução
A busca por modelos organizacionais cada vez mais ágeis, dinâmicos e flexíveis, visando o aumento das vantagens competitivas, tem levado as empresas a recorrer à automação e informatização dos seus processos. Neste sentido, a crescente informatização da comunicação administrativa nas empresas tem propiciado uma agilidade sem precedentes no fluxo da comunicação interna. O correio eletrônico, um dos principais meios de informatização da comunicação, é atualmente “quase uma norma nas empresas do mundo moderno” (NASCIMENTO , 2002), devido ao grande potencial de aumento de produtividade e redução de custos. Por outro lado, o amplo uso do correio eletrônico pelos empregados, em todos os níveis da organização, facilita o rompimento de barreiras hierárquicas das estruturas rígidas, permitindo um fluxo livre e desobstruído da informação, através da comunicação direta entre o remetente e o destinatário sem a intermediação de instâncias “repassadoras” da informação (ROMAN , 2002).
O correio eletrônico propiciou, também, o rompimento das barreiras na comunicação da organização com o mundo exterior, trazendo à rotina diária, assuntos antes restritos à vida fora do trabalho.
Esse fluxo desobstruído da informação, tanto de origem interna quanto externa à organização, resultou no aumento exponencial da informação disponível para os trabalhadores do mundo atual e, como conseqüência, a necessidade de lidar com essa abundância de informação, o que toma, inevitavelmente, tempo antes dedicado a outras atividades.
Considerando que o tempo “é um recurso importante, cobiçado e até mesmo estratégico para a sociedade e as organizações” (EMMENDOERFER, 2002), o correio eletrônico ao mesmo tempo em que agilizou de forma sem precedente a comunicação, também trouxe como subproduto dessa verdadeira revolução, um aspecto potencialmente negativo para as organizações: o “consumo” de tempo no tratamento da avalanche de informação.
Para DRUCKER (2002) a diferença entre o uso do tempo e o desperdício do tempo, para o gerente, é a eficácia e o resultado. Um impacto negativo no tempo disponível do gerente reflete diretamente nos resultados da organização, pois afeta substancialmente sua capacidade de dedicar tempo às pessoas, que segundo DRUCKER (2002) é a atividade central no trabalho do gerente.
Este trabalho tem como objetivo apresentar elementos para a discussão sobre a influência do correio eletrônico na gestão de uma empresa de grande porte, focando a sua abordagem na dimensão tempo, procurando entender se existe uma sobrecarga de informação e qual é a percepção do gerente sobre o efeito dessa sobrecarga no seu tempo diário de trabalho.
Foi aplicado um questionário com perguntas fechadas, com o quadro de gerentes de duas unidade de uma empresa brasileira de grande porte. A pesquisa procurou avaliar a quantidade de mensagens recebidas e enviadas diariamente através do correio eletrônico, a relevância dessas mensagens para o trabalho do gerente e a sua percepção quanto ao impacto no seu tempo disponível.
O trabalho está dividido em quatro seções, além da introdução. A segunda e terceira seções apresentam, respectivamente, uma revisão da dimensão “tempo” nas organizações e a sua importância para a gestão, e uma revisão do uso corporativo do correio eletrônico. Na quarta seção são discutidos os resultados da pesquisa. Finalmente, na quinta seção são apresentadas as conclusões do trabalho.
2. A dimensão tempo nas organizações
A importância da dimensão tempo foi percebida pelas organizações desde cedo, mas com a mecanização da produção, na medida em que a máquina tornou-se o ponto focal do trabalho, a programação do tempo tornou-se o aspecto central do planejamento (HASSARD, 2002). A partir de então, as organizações industriais “atribuíram um valor singular ao tempo, que ‘vale dinheiro’ [..]” (CASTELLI, 1990 apud EMMENDOERFER, 2002). Para HASSARD (2002), o tempo tornou-se uma “commodity” no processo de produção industrial. Ele afirma, também, que o relógio passou a ser onipresente nas organizações, dando a idéia de que o indivíduo estava vendendo o seu tempo de trabalho, ao invés do próprio trabalho. Mumford, citado por HASSARD (2002), sugeriu que o relógio, não a máquina a vapor, era a máquina-chave da era industrial. Essa idéia foi apresentada também por Charles Chaplin, no seu filme “Tempos Modernos”, ilustrando como ninguém a organização “Taylorista” da produção, na qual o relógio era o instrumento de coordenação e controle das empresas.
DRUCKER (2002) afirma que o tempo é um recurso totalmente perecível e não pode ser armazenado. Para ele, o tempo de ontem foi embora para sempre e nunca voltará. O tempo é totalmente insubstituível, é o recurso mais escasso e a menos que seja gerenciado nada mais pode ser gerenciado.
Para HASSARD (2002) na era pós-moderna o “tempo do relógio” está sendo suplantado pelo chamado “tempo-instantâneo”, visto que os indivíduos responsáveis por tomar decisões têm de responder “instantaneamente” a um mundo organizacional crescentemente complexo e arriscado. HASSARD (2002) argumenta que enquanto o telefone e o fax reduziram o tempo de resposta de meses, semana e dias para segundos, os computadores comprimiram o tempo de resposta para bilionésimo de segundos, fazendo com que as práticas organizacionais sejam baseadas, cada vez mais, em escalas de tempo que estão além da consciência humana.
Os delimitadores tradicionais do tempo estão sendo gradualmente abandonados. As mudanças organizacionais e inovações tecnológicas têm rompido as distinções entre noite e dia, dias de trabalho e fins-de-semana, casa e trabalho, lazer e trabalho (HASSARD, 2002).
A dimensão tempo sendo fundamental para a organização e para a sua gestão é vital para o gerente. Segundo DRUCKER (2002), o gerente eficaz não cuida primeiro de suas tarefas, mas do seu tempo. Ele deve, prioritariamente, descobrir onde o seu tempo é gasto. Refletir sobre os problemas mais importantes, extrair informações úteis dos dados disponíveis, tomar decisões e, principalmente, estar disponível para as pessoas de sua equipe, são atividades que requer tempo do gerente. Para DRUCKER (2002) gastar apenas alguns minutos com pessoal é improdutivo. O gerente que pensa que pode discutir planos e desempenho com um dos seus subordinados em quinze minutos – segundo Drucker, muitos gerentes acreditam nisso – é apenas enganar a si mesmo. Para ele, as atividades gerenciais requerem períodos contínuos de tempo relativamente longos, para que os assuntos sejam tratados de forma eficaz.
Portanto, o tempo, por ser um recurso tão importante para a gestão, “o fator limitante” como afirma DRUCKER (2002), precisa ser muito bem gerenciado, sob pena de se comprometer, irremediavelmente, os resultados da organização.
3. O correio eletrônico e seu uso corporativo
Com o surgimento da Internet, na década de 70, e a sua popularização, na década de 90, o mundo ficou ainda “menor”. Grande parte do conhecimento humano acumulado ao longo da história está, literalmente, ao alcance da mão, ou mais precisamente, da ponta dos dedos. O correio eletrônico, talvez a aplicação mais popular da Internet, é o serviço que melhor atinge o objetivo da rede mundial de computadores – a comunicação (NASCIMENTO, 2002).
O correio eletrônico apresenta uma série de vantagens que consolidaram a sua popularidade: as mensagens são transmitidas, literalmente, à velocidade da luz, podendo se anexados arquivos em qualquer formato digital; ao contrário do telefone, não exige a presença de ambos os interlocutores, ficando a critério do receptor a escolha do momento mais adequado para ler a mensagem; baixo custo em relação à ligação telefônica, podendo transmitir uma grande quantidade de informação em muito pouco tempo, o que não é possível com a comunicação oral (NASCIMENTO, 2002).
Para (NASCIMENTO, 2002), “Quem ficar fora da grande rede estará perdendo a conexão planetária do século XXI. Esse lembrete vale tanto para as empresas quanto para usuários individuais”.
No entanto, como toda inovação tecnológica o correio eletrônico trouxe, juntamente com todas as vantagens evidentes, novos problemas até então não experimentados, além de potencializar problemas já existentes nas organizações. Rompendo as barreiras tradicionais na comunicação corporativa, o correio eletrônico trouxe o mundo exterior à mesa de trabalho nas organizações contemporâneas, o que sendo uma das principais características revolucionárias desse novo meio de comunicação, também é um de seus aspectos mais problemático. Nesse sentido, o correio eletrônico tem inundado a caixa de entrada dos usuários com mensagens não relacionadas, na sua maioria, com o seu trabalho.
BUCKLEY (1999) relata que o diretor de arte da revista PC Computing acredita que 75% dos e-mails são desnecessários, reclamando por ser incluído em listas de mensagens que não são relacionadas com o seu trabalho. Shostak, citado por BUCKLEY (1999), disse que recebia 50 mensagens por dia e a metade exigia resposta.
Many … consist of jokes, irrelevant bulletins and important announcements about
secret cookie recipes.… If I spend five minutes considering and composing a
response to each correspondence, then two hours of my day are busied with email,
even if I don’t initiate a single one.… The number of Internet users is
doubling about once a year…by the start of the new millennium, I—and millions
like me—will be doing nothing but writing e-mails. The collapse of commerce
and polite society will quickly follow (SHOSTAK, 1999 apud BUCKLEY, 1999)
Exagero à parte, constatamos hoje uma avalanche de mensagens comerciais não solicitadas, chamadas de “spam”, que obrigam as empresas a instalar softwares para filtragem das mensagens externas. STONE (2003), escreveu na Newsweek, que o “spam” está chegando a 60% do total de e-mails, segundo a empresa de pesquisa Gartner Group. Ainda segundo STONE (2003), a Ferris Research estima que o “spam” acarreta uma perda anual de produtividade equivalente a 9 bilhões de dólares.
Os filtros são soluções tecnológicas ainda em desenvolvimento, mas já são utilizados pela maioria das empresas na tentativa de minimizar a entrada de mensagens externas indesejadas. Mas, como filtrar as mensagens originadas internamente e que não são relevantes para o trabalho, que vão desde cópias de mensagens que não interessam até piadas e correntes?
Todos os remetentes esperam que o destinatário, no mínimo, tome conhecimento do conteúdo da sua mensagem. Isso coloca os usuários de correio eletrônico em uma situação de pressão: não ler uma mensagem pode significar não tomar conhecimento de um assunto importante, como a convocação para uma reunião ou a solicitação de um serviço, ou ainda, simplesmente, não dar atenção a um colega de trabalho ou a um amigo pessoal.
De acordo com GEDDIE (1998), um gerente de médio nível em uma companhia internacional afirmou que quando a caixa de entrada do seu correio eletrônico fica muito cheia, ele simplesmente apaga todas as mensagens, pois se for importante as pessoas entrarão em contato com ele. Para Geddie, essa é uma reação tipicamente humana para uma sobrecarga tecnológica, economizando o tempo do gerente a curto prazo. Mas questiona se isso é eficaz para ele e para o seu negócio.
Há dez anos estávamos sufocados pelo excesso de papel, ou pelo menos era o que achávamos, hoje estamos praticamente afogados nas mensagens eletrônicas, que ironicamente veio nos livrar do excesso de papel. “Os bits substituem os átomos” ROMAN (2002).
Enquanto incrementamos a nossa capacidade de coletar e organizar dados, afirma STODDART (2004), nossa habilidade de analisar e converter esses dados em informação útil e conhecimento não está sendo capaz de acompanhar a quantidade sendo gerada. Para ela, os gerentes freqüentemente têm uma quantidade aparentemente ilimitada de opções e dados disponíveis, apesar de o tempo requerido para analisá-los ter diminuído.
Terão mais capacidade de análise dos dados disponíveis e, portanto, mais poder, aqueles que forem capazes o suficiente para acessar, classificar, priorizar e usar esses dados (GEDDIE, 1998)
FRICK (2000) alerta que verificar o correio eletrônico a cada hora, ou a cada meia-hora, e achar que deve responder todas as mensagens, pode devorar o tempo e impedir a produtividade. Por outro lado BULKLEY (2003) afirma que não é o e-mail, em si, que pode influenciar a produtividade, mas a forma como é utilizado.
Segundo DRUCKER (2002) os executivos seniores raramente têm mais de um quarto do seu tempo verdadeiramente à sua disposição para assuntos importantes, que contribuem, para os quais eles são pagos. Nessa análise não foi levado em conta o tempo dedicado ao correio eletrônico, o que pode diminuir ainda mais o tempo disponível estimado por ele.
De acordo com STODDART (2004), atualmente uma questão crucial para os executivos seniores é como analisar mais dados em menos tempo. Enquanto RIBEIRO (2001) afirma que “o importante é que o dirigente não perca o foco do seu próprio trabalho”.
Os gerentes, pela própria natureza das suas atividades, são os principais usuários do correio eletrônico corporativo. Portanto, são os potencialmente mais afetados pelo excesso de mensagens. Por esse motivo foram os alvos da pesquisa apresentada nesse trabalho.
4. O uso do correio eletrônico em uma empresa brasileira de grande porte
Nessa empresa, como na maioria das grandes empresas, o correio eletrônico é amplamente usado como meio de comunicação interna entre os empregados, bem como na comunicação externa. Os gerentes estão entre os que mais utilizam o correio eletrônico nas suas atividades de rotina.
A pesquisa teve como objetivo avaliar a quantidade de mensagens recebidas e enviadas diariamente por cada gerente, aferir a relevância dessas mensagens para o trabalho e a sua percepção quanto ao impacto no seu tempo disponível.
O questionário foi enviado, via correio eletrônico, para todos os gerentes de duas unidades da empresa, tendo sido respondidos 60% do total enviado.
Constatou-se que 73,3% dos pesquisados recebem mais de 30 mensagens por dia e que 40% recebem mais de 40 mensagens por dia. Essa quantidade diária de mensagens é significativamente alta. Dois ou três dias sem abrir o correio, em viagens ou folgas por exemplo, pode significar mais de 100 mensagens não abertas acumuladas para a maioria dos gerentes.
Por outro lado, cerca de 47% dos gerentes pesquisados estimaram que entre 50 e 80% das mensagens recebidas não são relevantes para o seu trabalho. Excesso de informação que não interessa diretamente ao trabalho provoca, inevitavelmente, perda de tempo e desvio de foco, mesmo que seja descartada sem resposta. Além disso, as informações realmente importantes, que contribuem decisivamente para a eficácia do gerente, ficam “soterradas” sob uma camada de informações irrelevantes, o que requer atenção e habilidade adicionais para “garimpar” essas informações e não perdê-las.
A pesquisa realizada por SOUZA (2002), sobre o comportamento dos empregados de uma empresa na área de energia e telecomunicações diante do uso do correio eletrônico, mostrou que 51,6% dos pesquisados respondem imediatamente as mensagens recebidas, independente do grau de importância, e que a maioria (80%) dos pesquisados lê imediatamente as comunicações oficiais da organização. Pode-se, portanto, afirmar que o correio eletrônico é um veículo extremamente eficaz para a comunicação corporativa. No entanto, a falta de uma avaliação criteriosa do conteúdo e do público alvo da comunicação corporativa veiculada através do correio eletrônico pode contribuir substancialmente para a sobrecarga de informação não diretamente relacionada com o trabalho. Será que todos os gerentes precisam receber uma mensagem informando o resultado da partida final de futebol de salão dos jogos da empresa, ou da assinatura do contrato para construção de uma nova unidade operacional, por exemplo? Essas informações, certamente relevantes para um público específico, deveriam ser divulgadas por um outro meio, como a Intranet ou o Jornal local da unidade de negócio.
Os próprios gerentes contribuem para o tráfego excessivo de mensagens, quando repassam essas mensagens “automaticamente”, sem uma análise, para os membros de sua equipe ou para outros gerentes, em muitos casos utilizando uma lista pessoal de distribuição. Agindo assim, o gerente economiza o seu tempo através da apropriação do tempo de outras pessoas, o que não é uma medida eficiente para a organização. DRUCKER (2002) diz que os gerentes eficazes aprenderam a fazer a seguinte pergunta, de forma sistemática e aberta: “O que eu faço que desperdiça o seu tempo sem contribuir para a sua eficácia?”. Para Drucker, fazer essa pergunta, sem ter medo da verdade, é uma característica do gerente eficaz.
Somando-se a isso existem as mensagens com piadas, mensagens religiosas ou de auto-ajuda, e outras do gênero, originadas internamente à organização, para as quais as tecnologias de filtragens não funcionam, por não serem aplicadas às mensagens de origem interna.
Em relação ao envio de mensagens, 80% dos pesquisados responderam que enviam menos de 20 mensagens por dia, sendo que 46,7% enviam menos de 10. Portanto a maioria dos gerentes envia bem menos mensagens do que recebe.
Nenhum dos gerentes pesquisados respondeu que gasta menos de uma hora por dia com o correio eletrônico, sendo que 40% gastam mais de duas horas. É um tempo considerável para ser gasto apenas com o correio, principalmente se uma parte desse tempo for gasta de forma improdutiva procurando descobrir o que é importante, ou não, para o trabalho, entre dezenas de mensagens.
A revista Exame, na sua edição de 2 de Março de 2005, afirma que uma pesquisa realizada pela consultoria americana Booher Consultants Incorporation, feita com 900 executivos de 30 empresas, constatou que quase 70% dos entrevistados passam mais de duas horas por dia só respondendo aos e-mails, concluindo que “responder e-mails é hoje um dos maiores fatores de perda de tempo na jornada de quem comanda as empresas”.
Uma das recomendações de FRICK (2000), para evitar que o correio eletrônico “devore” o seu tempo, é verificar a sua caixa de entrada apenas uma ou duas vezes por dia, colocando uma nota na assinatura de suas mensagens informando esse procedimento, de tal forma que as pessoas fiquem sabendo que uma resposta imediata é improvável. Trabalhar com o correio aberto, dando uma olhada em cada mensagem que chega, pode ser produtivo para um atendente de “help-desk”, mas é fatal para a produtividade de quem trabalha com o conhecimento, os chamados por DRUCKER (2002) de “Knowledge Worker”, especialmente os que desempenham funções gerenciais.
Entre os gerentes pesquisados apenas um terço afirmou ter menos de 20 mensagens recebidas há mais de uma semana e ainda não lidas. No entanto, outro terço tem mais de 100 mensagens na sua caixa de entrada esperando, há mais de uma semana, serem lidas. Se uma parte dessas mensagens, mesmo pequena, for importante para o trabalho, alguma coisa está deixando de ser feita ou foi feita sem levar em consideração alguma informação relevante.
Foi constatado, também, que um terço dos pesquisados tem mais de 70 mensagens recebidas há mais de um mês e ainda não lidas, sendo que 20% têm mais de 100 mensagens nesta condição. Da mesma forma, alguma informação importante pode está sendo perdida ou não utilizada no momento adequado, o que em ambos os casos pode afetar negativamente a eficácia da gestão. O acúmulo de mensagens não lidas é um forte indício de que a quantidade recebida diariamente, avaliada inicialmente pela pesquisa, está além da capacidade de grande parte dos gerentes lidar com o fluxo diário de entrada do correio eletrônico. Esse “back-log” de mensagens vai, cedo ou tarde, demandar mais tempo para serem tratadas.
Na opinião de mais da metade dos gerentes pesquisados o correio eletrônico tem um impacto considerável no seu tempo disponível para as outras atividades gerenciais, e para 40% tem um impacto relativamente grande. O que está coerente com a quantidade de mensagens recebidas e com o “back-log” de mensagens não abertas.
Cabe aqui, mais uma vez, ressaltar a importância que deve ser atribuída à quantidade excessiva de mensagens não relevantes. O impacto do correio no tempo disponível só é um aspecto negativo se as informações tratadas não contribuírem para a eficácia do gerente e para os resultados da organização.
Dentre os “consumidores” de tempo apresentados aos pesquisados, o correio eletrônico foi considerado o segundo a tomar mais tempo, perdendo apenas para as reuniões. Estes resultados mostram, também, coerência com as outras questões da pesquisa. DAVIS (1993), citando a edição de 1985 do livro “The Effective Executive”, de Peter Drucker, lista os 10 maiores “consumidores” de tempo:
- Interrupções de telefonemas
- Mudanças de prioridades (gerenciamento de crises)
- Falta de objetividade, prioridades e planejamento
- Visitantes inesperados
- Delegação ineficaz
- Querer fazer coisas demais
- Reuniões
- Desorganização pessoal
- Incapacidade de dizer “não”
- Falta de auto-disciplina
Nessa época, 1985, o correio eletrônico era praticamente inexistente nas empresas e, como era de se esperar, não aparece entre os maiores “consumidores” de tempo.
5. Conclusões
Este trabalho procurou trazer elementos para a discussão da influência de uma nova e revolucionária tecnologia de comunicação na gestão das empresas, o correio eletrônico, buscando demonstrar que o uso dessa tecnologia trouxe, juntamente com as inquestionáveis e irreversíveis vantagens, um novo aspecto potencialmente problemático para as organizações: o fluxo excessivo de informação, grande parte dela não relevante para o trabalho, demandando tempo dos gerentes no tratamento dessa massa diária de dados.
O referencial teórico apresentando, o qual foi agrupado em dois temas – a dimensão “tempo” nas organizações e o uso corporativo do correio eletrônico, comprova a importância singular do tempo para as organizações, e para o gerente em particular, a partir da revolução industrial. Comprova também, o papel destacado do correio eletrônico na comunicação da era pós-moderna, a era do conhecimento, onde a capacidade de transformar informação em conhecimento já está sendo uma exigência diária para o trabalho dos “Knowledge Workers”. O problema se configura quando a massa de informação a ser trabalhada nas atividades diárias é muito grande e, principalmente, não focada no que realmente contribui para os resultados da organização. STODDART (2004) afirma que muitos gerentes seniores estão simplesmente sobrecarregados pelo imenso volume de informação disponível, acrescentando que a habilidade para acessar e usar informação eficazmente é uma absoluta necessidade para indivíduos e organizações.
A pesquisa realizada com os gerentes de duas unidades de uma empresa brasileira de grande porte, apresentou resultados consistentes com a literatura estudada, na medida em que detecta um fluxo de mensagens relativamente grande, muito pouco focado nos assuntos relevantes para o trabalho e que demanda, na visão dos gerentes, uma parcela significativa do seu tempo disponível.
O impacto no tempo do gerente, demonstrado pela pesquisa, não significa necessariamente impacto negativo na produtividade. Mas, o excesso de mensagens não diretamente relacionadas com o trabalho é uma séria ameaça à eficácia gerencial. Portanto, os resultados sugerem a necessidade de estudos sobre o assunto, focando os aspectos de “produtividade” ou eficácia da gestão.
A solução para o excesso de informação não focada no trabalho, não parece está na aplicação crescente de tecnologias voltadas para a seleção automática de dados relevantes, pelo menos no futuro previsível. No seu artigo, STONE (2003) afirma que no jogo de “gato e rato”, em que se tornou a guerra contra o “spam” na Internet, o rato está vencendo com uma grande vantagem. Segundo STONE (2003), um engenheiro de uma empresa de software anti-spam disse, referindo-se à luta contra o “spam”, que era como atingir um alvo que está vindo de todas as direções e se movendo na velocidade da Internet. Além disso, essa tecnologia não se aplica às mensagens não relevantes originadas internamente à organização. A abordagem mais adequada para o problema estaria no tratamento das questões do correio eletrônico como um assunto de comunicação corporativa e não como um assunto de Tecnologia de Informação.
Talvez, quando a febre do correio eletrônico chegou às organizações, o aumento da produtividade através da economia de tempo tenha sido um dos principais fatores na decisão de utilização dessa tecnologia. O correio eletrônico, sem dúvida, diminuiu vertiginosamente o tempo necessário para a transmissão da informação. Mas, em contrapartida, aumentou também vertiginosamente o volume de informação disponível, consumindo ainda mais o tempo nas organizações. Isso implica no fracasso do uso corporativo do correio eletrônico? GEDDIE (1998) traduz bem essa expectativa equivocada na aplicação de tecnologias, quando afirma: “Successful use of technology is not creating more time for us, but does allow us to use time in different ways”. Essas formas diferentes do uso do tempo podem influenciar positiva ou negativamente nos resultados das organizações, depende apenas de como o tempo é utilizado.
Referências
BUCKLEY, Suzanne. E-Mail Use by Newspaper Editors. Creativity and Consumption Conference, University of Luton, Luton, U.K, 29-31 de Março, 1999.
BULKLEY, Nathaniel; ALSTYNE, Marshal. Does E-Mail Make White Collar Worker More Productive? University of Michigan, 2003.
DAVIS, Arthur G. Better time management can improve job performance. PRIMEDIA Business Magazines & Media Inc, 1993. Disponível em: www.findarticles.com. Acesso em: Dez/2004
DRUCKER, Peter. Know Thy Time. In:___ The Effective Executive. Adobe Acrobat E-Book Reader edition v 1. 2002. cap. 2, p. 25-53
EMMENDOERFER, Magnus L. Tempo Livre nas Organizações: Concepções, Evidências e Reflexões de Um Estudo Teórico-Empírico. 2002. Escola de Administração, UFSC
FRICK, Elizabeth A. Managing Your Productivity. In: Intercom Magazine, Fev. 2000.
GEDDIE, Tom. Technology: it’s about time - relationship between technology and time. International Association of Business Communicators, 1998. Disponível em: www.findarticles.com. Acesso em: Dez/2004
HASSARD, John. Essai: organizational time; modern, symbolic and postmodern reflections. Walter de Gruyter und Co, 2002. Disponível em: www.findarticles.com. Acesso em: Dez/2004
NASCIMENTO, Raimundo B.; TROMPIERI, Nicolino F. Correio eletrônico como recurso didático no ensino superior – o caso da Universidade Federal do Ceará. 2002, Universidade Federal do Ceará.
RIBEIRO, Renato V. O Imbatível Executivo de Resultados. Rev. FAE, Curitiba, v.4, n.3, p.45-52, set./dez. 2001. Disponível em: www.fae.edu/publicacoes/ Acesso em: Jan/2005
ROMAN, Artur R. Chega de papel! O correio eletrônico e a comunicação administrativa nas empresas. 2002. Comunicação Social, UFPR
SOUZA, Hamilton E. L. Cultura organizacional na utilização da tecnologia de informação Intranet. 2002. UFSC
STODDART, Linda. Is information really used in decision making? On Line Information, 2004. Disponível em: www.un.org/depts/dhl Acesso em: Dez/2004
STONE, Brad. Soaking In Spam. Newsweek, v.CXLII, n.23, p.38-39, 08/dez. 2003.
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eu gostaria de obter um correio eletronico onde os usuarios leiam os meu dados e não apagam
obrigado
Comentário de rogerio — 12 de Julho de 2007 #
enter text? test, sorry
dfdf767df
Comentário de PrelKikam — 9 de Agosto de 2007 #
Sou acadêmica de jornalismo e gostaria de obter mais informações a respeito deste tema diretamente no e-mail do autor.
Comentário de Dinalva — 23 de Agosto de 2007 #
Tramadol….
Tramadol discussion. Tramadol hcl. Snorting tramadol. Side effects of tramadol….
Link desta publicação de Tramadol. — 2 de Dezembro de 2007 #